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A CRUZ DE CRISTO

Por Watchman Nee

Vimos que Romanos 1 a 8 se divide em duas seções, a
primeira das quais nos mostra que o Sangue trata daquilo que
fizemos, enquanto na segunda aprendemos que a Cruz trata
daquilo que somos. Precisamos do Sangue para o perdão, e
precisamos da Cruz para a libertação. Já tratamos daquele, e
agora consideraremos esta, depois de primeiramente levantar
algumas características desta passagem que contribuem para
demonstrar a diferença, em conteúdo e assunto, entre as duas
metades.
Algumas distinções mais
Mencionam-se dois aspectos da ressurreição nas duas
seções, nos capítulos 4 e 6. Em Romanos 4.25, a ressurreição do
Senhor Jesus Cristo é mencionada, em relação à nossa
justificação: "Jesus nosso Senhor... foi entregue por causa das
nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa
justificação". Trata-se aqui da nossa posição perante Deus. Em
Romanos 6.4, no entanto, fala-se da ressurreição comunicandonos nova vida a fim de termos um andar santo: "Para que, como
Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim
também andemos nós em novidade de vida". Apresenta-se aqui a
questão do nosso comportamento, da nossa conduta.
Semelhantemente, fala-se de paz em ambas as seções, nos
capítulos 5 e 8. Romanos 5 fala da paz com Deus, que é resultado
da justificação pela fé no Seu Sangue: "Justificados, pois, mediante
a fé, tenhamos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus
Cristo" (5.1). Isto significa que, agora, perdoados os meus pecados,
Deus não será mais motivo de temor e perturbação para mim. Eu,
que era inimigo de Deus, fui "reconciliado com Deus mediante a
morte do Seu Filho" (5.10). Logo descubro, no entanto, que sou eu
quem causarei dificuldades a mim mesmo, havendo algo em meu
íntimo sem, porém, haver paz comigo mesmo. Trava-se guerra civil em
meu próprio coração. Esta condição está bem descrita em Romanos 7, onde vemos a carne e o espírito em conflito mortal dentro
do homem. Em seguida, o argumento conduz ao capítulo 8, à paz
interior do andar no Espírito. "Porque o pendor da carne dá para a
morte", por ser "inimizade contra Deus"; o pendor do Espírito,
porém, dá "para a vida e paz" (Romanos 8.6-7).
Percebemos, ao prestar mais atenção, que a primeira seção
trata de modo geral da questão da justificação (ver por exemplo,
Romanos 3.24-26; 4.5,25), enquanto a segunda tem, como
expoente principal, a questão da santificação (ver Romanos 6.19-
22). Conhecendo a preciosa verdade da justificação pela fé, ainda é
só metade da história que conhecemos. Foi solucionado o
problema da nossa posição diante de Deus. À medida que
prosseguimos, Deus tem algo mais para nos oferecer: a solução do
problema da nossa conduta, tema que o desenrolar do pensamento
destes capítulos se propõe a salientar. Em cada caso, p segundo
passo deriva do primeiro, e se conhecemos apenas o primeiro,
então ainda seguimos uma vida cristã subnormal. Como podemos
então viver uma vida cristã normal? Como entramos nela? Bem,
como é evidente, em primeiro lugar devemos receber o perdão dos
pecados, devemos ser justificados, devemos ter paz com Deus.
Estes são os fundamentos verdadeiramente estabelecidos mediante
nosso primeiro ato de fé em Cristo, sendo portanto evidente que
devemos avançar para algo mais.
Veremos, pois, que o Sangue trata objetivamente com os
nossos pecados. O Senhor Jesus levou-os, por nós, como nosso
Substituto, sobre a Cruz, e obteve, para nós, desse modo, o
perdão, a justificação e a reconciliação. Devemos, porém, dar agora
um passo a mais no plano de Deus para compreender como Ele
trata corr. o princípio do pecado em nós. O Sangue pode lavar e
tirar os meus pecados, mas não pode remover o meu "velhohomem". É necessária a Cruz para me crucificar. O Sangue trata
dos pecados, mas a Cruz trata do pecador? Dificilmente se
encontra a palavra "pecador" nos primeiros quatro capítulos de
Romanos. E isto porque ali não se salienta necessariamente o
próprio pecador, falando-se mais dos pecados que ele comete. A
palavra "pecador" aparece com destaque só no capítulo 5, e é
importante notar-se como é que o pecador é apresentado neste
trecho. É considerado pecador porque nasceu pecador, e não por  me pertur4ba, levando-me a pecar. Há paz ter cometido pecados. Esta distinção é importante. É verdade que
muitos obreiros do Evangelho, procurando demonstrar a alguém
que é pecador, emprega o versículo Rm 3.23, onde se afirma que
"todos pecaram", emprego este que não é rigorosamente justificado
pelas Escrituras. Corre-se o perigo de cair em contradição, porque
Romanos não ensina que somos pecadores por cometermos
pecados, e sim, pecamos por sermos pecadores. É mais por
constituição do que por ação que somos pecadores. Como Rm 5.19
o expressa: "Pela desobediência de um só homem, muitos se
tornaram pecadores". Como é que nos tornamos pecadores? Pela
desobediência de Adão. Não nos tornamos pecadores por aquilo
que fizemos, e sim, devido àquilo que fez Adão. O capítulo 3 chama
nossa atenção àquilo que fizemos — "todos pecaram" — não é,
porém, por isso que viemos a ser pecadores.
Perguntei, certa vez, a uma classe de crianças: "O que é um
pecador? " e a sua resposta foi imediata: "Um que peca". Sim,
aquele que peca é pecador, mas seu ato apenas comprova que já é
pecador. Mesmo aquele que não comete pecados, se pertence à
raça de Adão, também é pecador e necessita, igualmente, da
redenção. Há pecadores maus e pecadores bons, pecadores morais
e pecadores corruptos, mas todos são igualmente pecadores. Pensamos, às vezes, que tudo nos iria bem se não fizéssemos
determinadas coisas; o problema, no entanto, é muito mais
profundo do que aquilo que fazemos: está naquilo que somos. O
que se conta é o nascimento: sou pecador porque nasci de Adão.
Não é questão do meu comportamento ou da minha conduta, e,
sim, da minha hereditariedade, do meu parentesco. Não sou
pecador porque peco, mas peco porque descendo de linhagem má.
Peco por ser pecador.
Tendemos a pensar que o que fizemos pode ser muito mau, e
que nós mesmos não somos tão maus assim. O que Deus deseja
realmente nos mostrar é que nós é que somos fundamentalmente
errados. A raiz do problema é o pecador: é com ele que se deve
tratar. Os nossos pecados são solucionados pelo Sangue, mas nós
próprios somos tratados pela Cruz. O Sangue nos perdoa pelo que
fizemos; a Cruz nos liberta daquilo que somos.
A condição do homem por natureza
Chegamos pois a a graça se contrasta com o pecado, e a obediência de Cristo com a
desobediência de Adão. A passagem inicia a segunda seção de
Romanos (5.12 a 8.39), com que nos ocuparemos agora de maneira
especial, tirando dela a conclusão que se acha no versículo 19, já
citado: "Porque, como pela desobediência de um só homem muitos
se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de
um só muitos se tornarão justos". O Espírito de Deus procura aqui
nos mostrar, em primeiro lugar, o que somos, e depois como
chegamos a ser o que somos. No começo da nossa vida cristã,
ficamos preocupados com o que fazemos, e não com o que somos;
sentimo-nos mais tristes pelo que temos feito, do que pelo que
somos. Pensamos que, se pudéssemos retificar certas coisas,
seríamos bons cristãos, e então, procuramos modificar as nossas
ações. Os resultados, porém, não são o que esperávamos.
Descobrimos, com grande espanto, que se trata de algo mais do
que apenas certas dificuldades externas — que realmente há no
íntimo um problema mais sério. Procuramos agradar ao Senhor,
descobrimos, porém, que há algo dentro de nós que não deseja
agradar-Lhe. Procuramos ser humildes, mas há algo em nosso
próprio-eu que se recusa a ser humilde. Procuramos demonstrar
afeto, mas não sentimos ternura no íntimo. Sorrimos e procuramos
parecer muito amáveis, mas no íntimo sentimos absoluta falta de
amabilidade. Quanto mais procuramos corrigir as coisas na parte
exterior, tanto melhor entendemos quão profundamente se arraigou o problema na parte interior. Então, chegamo-nos ao Senhor,
dizendo: "Senhor, agora compreendo! Não é só o que tenho feito
que está errado! Eu estou errado".
A conclusão de Romanos 5.19 começa a se tornar clara para
nós. Somos pecadores. Somos membros de uma raça que é,
constitucionalmente, diferente do que Deus intencionou que fosse.
Por causa da queda, houve fundamental transformação no caráter
de Adão, em virtude do que se tornou pecador,
constitucionalmente incapaz de agradar a Deus e a semelhança
familiar que todos nós temos com ele não é meramente superficial
— expressa-se também no nosso caráter interior. Como aconteceu
isto? "Pela desobediência de um", diz Paulo.
A nossa vida vem de Adão. Onde estaria você agora, se o seu
bisavô tivesse morrido com três anos de idade? Teria morrido nele!
A sua experiência está unida à dele. A experiência de cada um de
nós está unida à de Adão da mesmíssima forma. Potencialmente,  5 :12-21. Nesta grande passagemtodos nós estávamos no Éden quando Adão se rendeu às palavras
da serpente. Todos estamos envolvidos no pecado de Adão e, sendo
nascidos "em Adão", recebemos dele tudo aquilo em que ele se
tornou, como resultado do seu pecado — quer dizer, a natureza de
Adão, que é a natureza do pecador. Derivamos dele a nossa
existência, e, porque sua vida se tornou pecaminosa, e pecaminosa
a sua natureza, a natureza que dele derivamos também é
pecaminosa. De modo que o problema está na nossa
hereditariedade e não no nosso procedimento. A menos que
possamos modificar o nosso parentesco, não há livramento para
nós.
Mas é precisamente neste ponto que encontraremos a solução
do nosso problema, porque foi exatamente assim que Deus
encarou a situação.
Como em Adão, assim em Cristo
Em Romanos 5.12-21, não somente se nos diz algo a respeito
de Adão, mas também em relação ao Senhor Jesus. "Porque, como
pela desobediência de um só homem muitos se tornaram
pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos
se tornaram justos" (19). Em Adão recebemos tudo o que é de
Adão; em Cristo recebemos tudo o que é de Cristo.
As expressões "em Adão" e "em Cristo" são muito pouco
compreendidas pelos cristãos, e desejo salientar, por meio de uma
ilustração que se acha na Epístola aos Hebreus, o significado
racial e hereditário da expressão "em Cristo". Na primeira parte da
carta, o escritor procura demonstrar ser Melquisedeque maior do
que Levi. A finalidade desta demonstração é provar que o sacerdó-
cio de Cristo é maior do que o de Arão, que era da tribo de Levi. Já
que o sacrifício de Cristo é "segundo a ordem de Melquisedeque"
(Hebreus 7.14-17) e o de Arão, segundo a ordem de Levi, o
argumento gira em tomo de provar que Melquisedeque é maior do
que Levi.
Hebreus 7 diz que Abraão, voltando da batalha dos reis
(Gênesis 14), ofereceu a Melquisedeque o dízimo dos despojos e
recebeu da parte dele uma bênção, revelando ser ele de menor
categoria do que Melquisedeque, porque é o menor que oferece ao
maior (Hb 7.7). a Melquisedeque implica que Isaque, "em Abraão", também o
ofereceu, e o mesmo se aplica a Jacó, e também a Levi. De modo
que Levi é de menor categoria do que Melquisedeque, e o
sacerdócio dele inferior ao do Senhor Jesus. Nem sequer se
pensava em Levi na época da batalha dos reis. Contudo, fez sua
oferta na pessoa do seu pai, antes de ter sido gerado por ele (Hb
7.9,10).
Ora, é justamente isto que significa a expressão "em Cristo".
Abraão, como a cabeça da família da fé, incluiu, em si mesmo, toda
a família. Quando ele fez a SUE oferta a Melquisedeque, toda a sua
família participou daquele ato. Não fizeram ofertas separadamente,
como indivíduos, mas estavam nele, porque toda a sua semente
estava incluída nele.
Apresenta-se-nos assim uma nova possibilidade. Em Adão,
tudo se perdeu. Pela desobediência de um homem, fomos todos
constituídos pecadores. O pecado entrou por ele, e, pelo pecado,
entrou a morte, e desde aquele dia o pecado impera em toda a
raça, produzindo a morte. Agora, porém, um raio de luz incide
sobre a cena. Pela obediência de Outro, podemos ser constituídos
justos. Onde o pecado abundou, superabundou a graça, e, como o
pecado reinou na morte, do mesmo modo a graça pode reinar por
meio da justiça para a vida eterna por Jesus Cristo, nosso Senhor
(Romanos 5.19-21). O nosso desespero está em Adão; a nossa
esperança está em Cristo.
O processo divino da libertação
Deus certamente deseja que estas considerações nos levem à
libertação prática do pecado. Paulo deixa isto bem claro ao iniciar
o capítulo 6 desta carta com a pergunta: "Permaneceremos no
pecado? " Todo o seu ser se revolta perante a simples sugestão. "De
modo nenhum", exclama. Como podia um Deus santo ter
satisfação em possuir filhos não santos, presos com os grilhões do
pecado? E, por isso, "como viveremos ainda no pecado? " (Rm
6.1,2). Deus ofereceu, portanto, provisão certa e adequada para
que fossemos libertados do domínio do pecado.
Mas aqui está o nosso problema. Nascemos pecadores; como
podemos extirpar a nossa hereditariedade pecaminosa? Desde que
nascemos em Adão, como podemos sair dele, livrando-nos dele?, o fato de Abraão ter a Melquisedeque implica que Isaque, "em Abraão", também o
ofereceu, e o mesmo se aplica a Jacó, e também a Levi. De modo
que Levi é de menor categoria do que Melquisedeque, e o
sacerdócio dele inferior ao do Senhor Jesus. Nem sequer se
pensava em Levi na época da batalha dos reis. Contudo, fez sua
oferta na pessoa do seu pai, antes de ter sido gerado por ele (Hb
7.9,10).
Ora, é justamente isto que significa a expressão "em Cristo".
Abraão, como a cabeça da família da fé, incluiu, em si mesmo, toda
a família. Quando ele fez a SUE oferta a Melquisedeque, toda a sua
família participou daquele ato. Não fizeram ofertas separadamente,
como indivíduos, mas estavam nele, porque toda a sua semente
estava incluída nele.
Apresenta-se-nos assim uma nova possibilidade. Em Adão,
tudo se perdeu. Pela desobediência de um homem, fomos todos
constituídos pecadores. O pecado entrou por ele, e, pelo pecado,
entrou a morte, e desde aquele dia o pecado impera em toda a
raça, produzindo a morte. Agora, porém, um raio de luz incide
sobre a cena. Pela obediência de Outro, podemos ser constituídos
justos. Onde o pecado abundou, superabundou a graça, e, como o
pecado reinou na morte, do mesmo modo a graça pode reinar por
meio da justiça para a vida eterna por Jesus Cristo, nosso Senhor
(Romanos 5.19-21). O nosso desespero está em Adão; a nossa
esperança está em Cristo.
O processo divino da libertação
Deus certamente deseja que estas considerações nos levem à
libertação prática do pecado. Paulo deixa isto bem claro ao iniciar
o capítulo 6 desta carta com a pergunta: "Permaneceremos no
pecado? " Todo o seu ser se revolta perante a simples sugestão. "De
modo nenhum", exclama. Como podia um Deus santo ter
satisfação em possuir filhos não santos, presos com os grilhões do
pecado? E, por isso, "como viveremos ainda no pecado? " (Rm
6.1,2). Deus ofereceu, portanto, provisão certa e adequada para
que fossemos libertados do domínio do pecado.
Mas aqui está o nosso problema. Nascemos pecadores; como
podemos extirpar a nossa hereditariedade pecaminosa? Desde que
nascemos em Quero afirmar de imediato que o Sangue não nos pode tirar para
fora de Adão. Há somente um caminho. Desde que entramos nele
pelo nascimento, devemos sair dele pela morte. Para nos despojarmos da nossa pecaminosidade, temos que nos despojar da
nossa vida. A escravidão ao pecado veio pelo nascimento; a
libertação do pecado vem pela morte - e foi exatamente este o
caminho de escape que Deus ofereceu. A morte é o segredo da
emancipação. Estamos mortos para o pecado (Rm 6.2).
Como, afinal, podemos nós morrer? Alguns de nós
procuramos, mediante grandes esforços, libertar-nos desta vida
pecaminosa, mas a achamos muito tenaz. O caminho de saída não
é nos matarmos, e sim, reconhecer que Deus em Cristo cuidou da
nossa situação. É esta a idéia contida na seguinte declaração do
apóstolo: "todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos
batizados na sua morte" (Rm 6.3).
Se, porém, Deus solucionou nosso caso "em Cristo Jesus",
logo temos que estar nEle, para que isto se torne realidade eficaz, e
assim surge problema igualmente grande. Como podemos "entrar"
em Cristo? É neste sentido que Deus vem de novo em nosso
auxílio. Não temos mesmo meio algum de entrar nEle, mas o que
importa é que não precisamos tentar entrar, porque já estamos
nEle. Deus fez por nós o que não poderíamos fazer por nós
mesmos. Ele nos colocou em Cristo. Quero recordar I Co 1.30: "Vós
sois dele (isto é, de Deus), em Cristo Jesus". Graças a Deus! Não
nos incumbe sequer de divisar um caminho de acesso ou elaborar
um plano. Deus fez os planos necessários. Não só planejou como
também executou o plano. "Vós sois dele, em Cristo Jesus".
Estamos nEle; portanto, não precisamos procurar entrar. É um ato
divino, e está consumado.
Se isto é verdade, seguem-se certos resultados. Na ilustração
do capítulo 7 de Hebreus vimos que "em Abraão" todo Israel — e,
portanto, Levi, que ainda não nascera — ofereceu o dízimo a
Melquisedeque. Não fizeram esta oferta separada e
individualmente, mas estavam em Abraão quando este fez a oferta,
e, ao fazê-la, incluiu, nesse ato, toda a sua semente. Isto é, pois,
uma verdadeira figura de nós próprios "em Cristo". Quando o
Senhor Jesus estava na Cruz, todos nós morremos — não individualmente, porque ainda nem tínhamos nascido — mas, estando
nEle, morremos nEle. "Um morreu por todos, logo todos morreram"
(II Co 5.14). Quando Ele foi crucificado, todos nós fomos, como podemos sair dele, livrando-nos dele?  o crucificados.
"Vós sois dele, em Cristo Jesus". O próprio Deus nos colocou
em Cristo e, tratando com Cristo, Deus tratou com toda a raça. O
nosso destino está ligado ao Seu. Pelas experiências por que Ele
passou, nós igualmente passamos, porque estar "em Cristo"
significa ter sido identificado com Ele, tanto na Sua morte como na
Sua ressurreição. Ele foi crucificado; o que, então, sucedeu
conosco? Devemos pedir a Deus que nos crucifique? Nunca!
Quando Cristo foi crucificado, nós fomos crucificados; sendo a Sua
crucificação passada, a nossa não pode situar-se no futuro.
Desafio qualquer pessoa a encontrar um texto no Novo Testamento
que nos diga ser futura a nossa crucificação. Todas as referências
a ela se encontram no tempo aoristo do Grego, tempo que significa
"feito de uma vez para sempre", "eternamente passado" (ver Rm
6.6, Gl 2.20; 5.24). E como um homem não poderia se suicidar
nunca pela crucificação, por ser fisicamente impossível, assim
também, em termos espirituais, Deus não requer que nos
crucifiquemos a nós próprios. Fomos crucificados quando Ele foi
crucificado, pois Deus nos incluiu nEle na Cruz. A nossa morte,
em Cristo, não é meramente uma posição de doutrina, é um fato
eterno.
A Morte e a Ressurreição dEle são representativas e
inclusivas
Quando o Senhor Jesus morreu na Cruz, derramou o Seu
Sangue, dando assim a Sua vida, isenta de pecado, para expiar os
nossos pecados e assim satisfez a justiça e a santidade de Deus.
Tal ato constitui prerrogativa exclusiva do Filho de Deus. Nenhum
homem poderia participar dele. A Escritura nunca diz que nós
derramamos o nosso sangue juntamente com Cristo. Na Sua obra
expiatória, perante Deus, Ele agiu sozinho. Ninguém poderia
participar dele com Ele. O Senhor, no entanto, não morreu apenas
para derramar o Seu sangue: morreu para que nós pudéssemos
morrer. Morreu como nosso Representante. Na Sua morte Ele
incluiu a você e a mim.
Freqüentemente usamos os termos "substituição" e
"identificação" para descrever estes dois aspectos da morte de
Cristo. A palavra "identificação" muitas vezes é boa; pode, porém,
sugerir procuro identificar-me com o Senhor. Concordo que a palavra é
verdadeira, mas deve ser empregada mais tarde. É melhor começar
com a verdade de que o Senhor me incluiu na Sua morte. É a
morte "inclusiva" do Senhor que me habilita a me identificar com
Ele,ao invés de ser eu quem me identifico com Ele a fim de ser
incluído. E aquilo que Deus fez, incluindo-me em Cristo, que
importa. É por isso que as duas palavras "em Cristo" me são
sempre tão queridas ao coração.
A morte do Senhor Jesus é inclusiva, e Sua ressurreição
igualmente. Examinando o primeiro capítulo de I Coríntios,
estabelecemos que estamos "em Cristo", e agora, mais pelo fim da
Carta, veremos algo mais sobre o significado disto. Em I Co 15.45-
47, atribuem-se ao Senhor Jesus dois títulos notáveis. É chamado
"o último Adão" e, igualmente, "o segundo Homem". A Escritura
não se Lhe refere como o segundo Adão e sim, como o "último
Adão", nem se Lhe refere como o último Homem, e sim, como "o
segundo Homem". Note-se esta diferença, que encerra uma
verdade de grande valor.
Como o último Adão, Cristo é a soma total da humanidade;
como o segundo Homem, Ele é a Cabeça de uma nova raça. De
modo que temos aqui duas uniões, referindo-se uma à Sua morte e
outra à Sua ressurreição. Em primeiro lugar, a Sua união com a
raça, como "o último Adão", começou, historicamente, em Belém, e
terminou na Cruz e no sepulcro. E ali reuniu em Si mesmo tudo o
que era de Adão, levando-o ao julgamento e à morte. Em segundo
lugar, a nossa união com Ele, como "o segundo Homem", começa
com a ressurreição e termina na eternidade, ou seja, nunca, pois,
tendo acabado por meio da Sua morte com o primeiro homem em
quem se frustrara o propósito de Deus, ressuscitou como o Cabeça
de uma nova raça de homens, em que será plenamente realizado
aquele propósito.
Quando, portanto, o Senhor Jesus foi crucificado, foi no Seu
caráter de último Adão, reunindo em Si e anulando tudo o que era
do primeiro Adão. Como o último Adão, pôs termo à velha raça -
como o segundo Homem, inicia a nova raça. É na ressurreição que
Se apresenta como o segundo Homem, e nesta posição nós
também estamos incluídos. "Porque se fomos unidos com ele na
semelhança da sua morte, certamente o seremos também na
semelhança da sua ressurreição" (Rm 6.5). Morremos nEle, como o
último Adão; vivemos nEle, como o segundo Homem. A Cruz é a experiência começa do ß lado: que sou eu que   Deus, pois, o poder de Deus que nos transfere de Adão para Cristo.

O SANGUE DE JESUS

WATCHMAN NEE   


O que é a vida cristã normal? Fazemos bem em considerar
esta questão logo de início. O objetivo destes estudos é mostrar
que essa vida é algo muito diferente da vida do cristão comum. De
fato, a análise da Palavra de Deus escrita — do Sermão da
Montanha, por exemplo — deve levar-nos a perguntar se tal vida já
foi vivida sobre a terra, a não ser, unicamente, pelo próprio Filho de
Deus. Mas, nesta edição, encontramos imediatamente a resposta à
nossa pergunta.
O apóstolo Paulo nos dá a sua própria definição da vida cristã
em Gálatas 2.20. É "não mais eu, mas Cristo". E não declara aqui
alguma coisa especial ou singular — um alto nível de cristianismo.
Creio que aqui apresenta o plano normal de Deus, para o cristão,
que pode ser resumido nas seguintes palavras: Vivo não mais eu,
mas Cristo vive a Sua vida em mim.
Deus nos revela claramente, na Sua Palavra, que somente há
uma resposta para cada necessidade humana — Seu Filho, Jesus
Cristo. Em toda a Sua ação a nosso respeito, Deus usa o critério
de nos tirar do caminho, pondo Cristo, o Substituto, em nosso
lugar. O Filho de Deus morreu em nosso lugar, para obter o nosso
perdão; Ele vive em vez de nós, para alcançar o nosso livramento.
Podemos falar, pois, de duas substituições — uma Substituição na
Cruz, que assegura o nosso perdão, e uma Substituição interior
que assegura a nossa vitória.. Ajudar-nos-á grandemente, e evitará
muita confusão, conservar constantemente perante nós este fato:
Deus responderá a todos os nossos problemas de uma só forma:
mostrando-nos mais do Seu Filho.
Nosso problema duplo: os pecados e o pecado
Tomaremos agora, como ponto de partida para o nosso
estudo da vida cristã normal, aquela grande exposição da mesma
que encontramos nos primeiros oito capítulos da Epístola aos
Romanos e encararemos o assunto de um ponto de vista


experimental e prático. Será de grande auxílio notar, em primeiro
lugar, uma divisão natural desta seção de Romanos em duas, e
notar certas diferenças evidentes no conteúdo das duas partes.
Os primeiros oito capítulos de Romanos constituem em si
mesmos, uma unidade completa. Os quatro capítulos e meio, de
1.1 a 5.11, formam a primeira metade desta unidade, e os três
capítulos e meio, de 5.12 a 8.39, a segunda metade. Uma leitura
cuidadosa revelar-nos-á que o conteúdo das duas metades não é o
mesmo. Por exemplo, no argumento da primeira seção
encontramos em proeminência a palavra plural "pecados". Na
segunda seção, contudo, esta ênfase é modificada, porque,
enquanto a palavra "pecados" ocorre apenas uma vez, a palavra
singular "pecado" é usada repetida vezes, e constitui o assunto
básico e principal das considerações. Por que assim?
Porque, na primeira seção, considera-se a questão dos
pecados que eu tenho cometido diante de Deus, que são muitos e
que podem ser enumerados, enquanto que, na segunda, trata-se
do pecado como princípio que opera em mim. Sejam quais forem
os pecados que eu cometo, é sempre o princípio do pecado que me
leva a cometê-los. Preciso de perdão para os meus pecados, mas
preciso também de ser libertado do poder do pecado. Os primeiros
tocam a minha consciência, o último a minha vida. Posso receber
perdão para todos os meus pecados, mas, por causa do meu
pecado, não tenho, mesmo assim, paz interior permanente.
Quando a luz de Deus brilha, pela primeira vez, no meu
coração, clamo por perdão, porque compreendo que cometi
pecados diante dEle; mas, após ter recebido o perdão dos pecados,
faço uma nova descoberta, ou seja, a descoberta do pecado, e
compreendo que não só cometi pecados diante de Deus, mas
também que existe algo de errado dentro de mim. Descubro que
tenho a natureza do pecador. Existe dentro de mim uma inclinação
para pecar, um poder interior que leva ao pecado. Quando aquele
poder anda solto, eu cometo pecados. Posso procurar e receber o
perdão, depois, porém, peco outra vez. E, assim, a vida continua
num círculo vicioso de pecar e ser perdoado e depois pecar outra
vez. Aprecio o fato bendito do perdão de Deus, mas eu desejo algo
mais do que isso: preciso de livramento. Preciso de perdão para o
que tenho feito, mas preciso também de ser libertado daquilo que
sou.




[28/7, 22:56] LucimarSila: O duplo remédio de Deus: o Sangue e a Cruz
Assim, nos primeiros oito capítulos de Romanos, apresentam￾se dois aspectos da salvação: em primeiro lugar, o perdão dos
nossos pecados e, em segundo lugar, a nossa libertação do pecado.
Agora, ao considerar este fato, devemos notar outra distinção.
Na primeira parte de Romanos, 1 a 8, encontramos duas
referências ao Sangue do Senhor Jesus, em 3.25 e 5.9. Na
segunda, é introduzida uma nova idéia, em 6.6, onde lemos que
fomos "crucificados" com Cristo. O argumento da primeira parte
centraliza-se em torno daquele aspecto da obra do Senhor Jesus,
que é representado pelo "Sangue" derramado para nossa
justificação, pela "remissão dos pecados". Esta terminologia não é,
contudo, levada para a segunda seção, cujo argumento gira em
tomo do aspecto da Sua obra representado pela "Cruz", o que quer
dizer, pela nossa união com Cristo na Sua morte, sepultamento e
ressurreição. Esta distinção tem muito valor. Veremos que o
Sangue soluciona o problema daquilo que nós fizemos, enquanto a
Cruz soluciona o problema daquilo que nós somos. O Sangue
purifica os nossos pecados, enquanto que a Cruz atinge a raiz da
nossa capacidade de pecar. O último aspecto será alvo das nossas
considerações nos capítulos que se seguem.
O problema dos nossos pecados
Comecemos, pois, com o precioso Sangue do Senhor.
O Sangue do Senhor Jesus Cristo é de grande valor para nós,
porque trata dos nossos pecados e nos justifica a vista de Deus,
conforme se declara nas seguintes passagens:
"Todos pecaram” (Romanos 3.23).
"Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo
fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda
pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados
pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira" (Rm 5.
8-9).
[28/7, 22:57] LucimarSila: Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, me￾diante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus
propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé,
para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tole￾rância, deixado impunes os pecados anteriormente
cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça
no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o
justificador daquele que tem fé em Jesus." (Rm 3.24-26).
Teremos ocasião, num estágio mais adiantado do nosso
estudo, de olhar mais particularmente para a natureza real da
Queda e para o processo da recuperação. Nesta altura, queremos
apenas lembrar de que o pecado, quando entrou, expressou-se em
forma de desobediência a Deus (Rm 5.19). Ora, devemos
considerar que, quando isto acontece, o que imediatamente se lhe
segue é o sentimento de culpa.
O pecado entra na forma de desobediência, para criar, em
primeiro lugar, separação entre Deus e o homem, do que resulta
ser este afastado de Deus. Deus já não pode ter comunhão com
ele, por agora existir algo que a impede, e que, através de toda a
Escritura, é conhecido como "pecado". Desta forma, é Deus que,
primeiramente, diz: "Todos... estão debaixo do pecado" (Rm 3.9).
Em segundo lugar, o pecado, que daí em diante constitui barreira
à comunhão do homem com Deus, comunica-lhe um sentimento
de culpa — de afastamento e separação de Deus. Agora, é o
próprio homem que, mediante a sua consciência despertada, diz:
"Pequei" (Lc 15.18). E ainda não é tudo, porque o pecado oferece
também a Satanás uma possibilidade de acusação diante de Deus,
enquanto o nosso sentimento de culpa lhe dá ocasião para nos
acusar nos nossos corações; assim, pois, em terceiro lugar, é o
"acusador dos irmãos" (Ap 12.10), que agora diz: "Tu pecaste".
Portanto, para nos remir, e nos fazer regressar ao propósito
de Deus, o Senhor Jesus teve que agir em relação a estas três
questões: do pecado, da culpa, e da acusação de Satanás contra
nós. Primeiramente, teve que ser resolvida a questão dos nossos
pecados, e isso foi feito pelo precioso Sangue de Cristo. Depois,
tem que ser resolvido o assunto da nossa culpa e é somente
quando se nos; mostra o valor daquele Sangue que a nossa
consciência culpada encontra descanso. E, finalmente, o ataque do
inimigo tem que ser encarado e as suas acusações respondidas. A
[28/7, 22:58] LucimarSila: Escrituras mostram como o Sangue de Cristo opera eficazmente
nestes três aspectos, em relação a Deus, em relação ao homem, e
em relação a Satanás.
Temos, portanto, necessidade de nos apropriarmos destes
valores do Sangue, se quisermos de fato prosseguir. É
absolutamente essencial. Devemos ter conhecimento básico do fato
da morte do Senhor Jesus, como nosso Substituto, sobre a Cruz, e
uma clara compreensão da eficácia do Seu sangue, em relação aos
nossos pecados, porque, sem isto, não poderemos dizer que inicia￾mos a marcha. Olharemos então estes três aspectos mais de perto.
O Sangue é primariamente para Deus
O Sangue é para expiação e, em primeiro lugar, relaciona-se
com a nossa posição diante de Deus. Precisamos de perdão dos
nossos pecados cometidos para que não caiamos sob julgamento; e
eles nos são perdoados, não porque Deus não os leva a sério, mas
porque Ele vê o Sangue. O Sangue é, pois, primariamente, não
para nós, mas para Deus. Se eu quero entender o valor do Sangue,
devo aceitar a avaliação que Deus dele faz e, se eu não conhecer o
valor que Deus dá ao Sangue, nunca saberei qual é o seu valor
para mim. É só na medida em que me é dado conhecer, pelo Seu
Espírito Santo, a estimativa que Deus faz do Sangue, que eu
próprio aprendo o seu valor, e vejo quão precioso o Sangue
realmente é para mim. Todavia, o seu primeiro aspecto é para
Deus. Através do Velho e do Novo Testamento, a palavra "sangue" é
usada em conexão com a idéia da expiação, segundo creio, mais de
cem vezes, e sempre, e em toda a Escritura algo que diz respeito a
Deus.
No calendário do Velho Testamento há um dia que tem
grande significação quanto aos nossos pecados, o Dia da Expiação.
Nada explica esta questão dos pecados tão claramente como a
descrição daquele dia. Em Levítico 16 lemos que, no Dia da
Expiação, o Sangue era tomado da oferta pelo pecado e trazido ao
Lugar Santíssimo e ali espargiu sete vezes diante do Senhor.
Devemos compreender isto muito bem. Naquele dia, a oferta pelo
pecado era oferecida publicamente no pátio do Tabernáculo. Tudo
estava ali à vista de todos, e por todos podia ser observado. Mas o
Senhor ordenou que nenhum homem entrasse no Tabernáculo, a
não ser o sumo sacerdote. Era somente ele que tomava o sangue,
[28/7, 23:00] LucimarSila: e, entrando no Lugar Santíssimo, o espargia ali para fazer a
expiação perante o Senhor. Por quê? Porque o sumo sacerdote era
um tipo do Senhor Jesus na Sua obra redentora (Hebreus 9.11-
12), e, assim, em figura, era o único que fazia este trabalho.
Ninguém, exceto ele, podia mesmo aproximar-se da entrada. Além
disso, havia relacionado com a sua entrada ali, um único ato: a
apresentação do sangue a Deus como algo que Ele aceitara algo
em que Ele Se satisfaria. Era uma transação entre o sumo
sacerdote e Deus, no Santuário, fora da vista dos homens que se
beneficiaram dela. O Senhor exigia-o. O Sangue é, pois, em
primeiro lugar, para Ele.
Mas, anteriormente, encontramos descrito em Êxodo 12.13, o
derramamento do sangue do cordeiro pascal, no Egito, para
redenção de Israel. Este é, creio um dos melhores tipos, no Velho
Testamento, da nossa redenção. O sangue foi posto na verga e nas
ombreiras das portas, enquanto que a carne do cordeiro era
comida no interior da casa; e Deus disse: "Vendo Eu sangue
passarei por cima de vós". Eis outra ilustração de o sangue não se
destinar a ser apresentado ao homem, e, sim, a Deus, pois que o
sangue era posto nas vergas e nas ombreiras das portas, de modo
que os que se encontravam em festa dentro das casas não
pudessem vê-lo.
Deus está satisfeito
É a santidade de Deus, a justiça de Deus, que exige que uma
vida sem pecado seja dada em favor do homem. Há vida no
Sangue, e aquele Sangue tem que ser derramado em favor de mim,
pelos meus pecados. Deus requer que o Sangue seja apresentado
com o fim de satisfazer a Sua própria justiça, e é Ele que diz:
"Vendo eu sangue passarei por cima de vós". O Sangue de Cristo
satisfaz Deus inteiramente.
Desejo agora dizer uma palavra a respeito disto aos meus
irmãos mais novos no Senhor, porque é neste caso que muitas
vezes caímos em dificuldade. Em nossa condição de descrentes,
podemos não ter sido absolutamente molestados pela nossa
consciência, até que a Palavra de Deus começou a nos despertar. A
nossa consciência estava morta, e aqueles que têm consciência
morta certamente não têm qualquer préstimo para Deus. Mas,
mais tarde, quando nós cremos, a nossa consciência pode se tomar
[28/7, 23:01] LucimarSila: extremamente sensível, e isto pode vir a ser real problema para
nós. O sentimento de pecado e de culpa pode se tornar tão grande,
tão terrível, que quase nos paralisa porque nos faz perder de vista
a verdadeira eficácia do Sangue. Parece-nos que os nossos pecados
são tão reais, e algumas vezes algum pecado em particular pode
atribular-nos tantas vezes, que chegamos ao ponto de imaginá-los
maiores do que o Sangue de Cristo.
Ora, nosso mal reside em estarmos procurando sentir o seu
valor e estimar, subjetivamente, o que o Sangue é para nós. Não
podemos fazê-lo. O Sangue não opera desta forma. Destina-se,
primeiramente, a ser visto por Deus. Então, temos que aceitar a
avaliação que Deus faz dele. Ao fazê-lo, acharemos a nossa própria
estimativa. Se, ao invés disto, procuramos avaliá-lo, por meio do
que sentimos, não alcançaremos nada, e permanecemos em trevas.
Pelo contrário, é. questão de fé na Palavra de Deus. Temos que crer
que o Sangue é precioso para Deus porque Ele assim o diz (I Pe
1.18-19). Se Deus pode aceitar o Sangue, como pagamento pelos
nossos pecados e como preço da nossa redenção, então podemos
ter certeza de que o débito foi pago. Se Deus está satisfeito com o
Sangue, logo, deve ser aceitável o Sangue. A nossa estimativa dele
é somente de acordo com a Sua avaliação — nem mais nem.
menos. Não pode, evidentemente, ser mais, mas não deve ser
menos. Lembremo-nos de que Ele é santo e justo, e que o Deus
santo e justo tem o direito de dizer que o Sangue é aceitável aos
Seus olhos, e que O satisfez inteiramente.
O acesso do crente ao sangue
O Sangue satisfaz a Deus, e deve nos satisfazer da mesma
forma. Tem, portanto, um segundo valor, em relação ao homem, na
purificação da sua consciência. Quando examinamos a Epístola
aos Hebreus, vemos que o Sangue faz isto. Devemos ter "os
corações purificados da má consciência" (Hebreus 10.22).
Isto é da máxima importância. Note cuidadosamente o que
diz a Escritura. O escritor não se limita a dizer que o Sangue do
Senhor Jesus purifica os nossos corações, sem nada mais
declarar. Erramos se relacionarmos inteiramente, desta forma, o
coração com o Sangue. Revelaremos má compreensão da esfera em
que o Sangue opera se orarmos: "Senhor, purifica o meu coração
do pecado, pelo Teu Sangue". O coração, diz Deus, é "enganoso,
[28/7, 23:02] LucimarSila: mais do que todas as coisas e perverso" (Jeremias 17. 9) e Ele tem
que fazer algo mais fundamental do que purificá-lo: tem que nos
dar um coração novo.
Não lavamos nem passamos a ferro roupas que vamos jogar
fora. Como logo veremos, a "carne" é demasiadamente má para ser
purificada; tem que ser crucificada. A obra de Deus em nós tem
que ser algo inteiramente novo. "Dar-vos-ei coração novo, e porei
dentro em vós espírito novo" (Ezequiel 36.26).
Não encontramos a declaração de que o Sangue purifica os
nossos corações. O seu trabalho não é subjetivo assim, mas
inteiramente objetivo diante de Deus. É verdade que o trabalho
purificador do Sangue aparece aqui, em Hebreus 10, com relação
ao coração, mas é, na realidade, com relação à consciência. "Tendo
o coração purificado da má consciência".
Qual então o significado disto?
Significa que havia algo se interpondo entre mim e Deus, e
que, como resultado disto, eu tinha má consciência sempre que
procurava aproximar-me dEle, que constantemente me lembrava
da barreira que permanecia entre mim e Ele. Mas, agora, pela
operação do precioso Sangue, algo foi realizado diante de Deus que
removeu aquela barreira. Deus revelou-me este fato através da Sua
Palavra. Quando creio nisto e o aceito, a minha consciência fica
imediatamente limpa, o meu sentimento de culpa é removido, e já
não tenho má consciência diante de Deus.
Cada um de nós sabe quão precioso é ter consciência sem
ofensa nas nossas relações com Deus. Um coração de fé, e uma
consciência limpa de toda e qualquer acusação, ambos são
igualmente essenciais para nós, desde que sejam
interdependentes. Logo que verificamos que a nossa consciência
está sem descanso, a nossa fé desvanece e imediatamente
achamos que não podemos encarar Deus. Portanto, a fim de
prosseguirmos com Deus, temos que conhecer o valor real atual do
Sangue. O Sangue nunca perderá a sua eficácia como fundamento
do nosso acesso a Deus, se realmente dele dependermos. Quando
entrarmos no Lugar Santíssimo, em que base, que não seja o
Sangue, nos atreveremos a fazê-lo?
Quero, porém, perguntar a mim mesmo: esta realmente
[28/7, 23:03] LucimarSila: procurando o caminho para a presença de Deus através do
Sangue, ou por algum outro meio? O que quero dizer quando
afirmo "pelo Sangue?” Quero dizer apenas que reconheço os meus
pecados, que confesso que necessito da purificação e da expiação e
que venho a Deus confiante na obra consumada do Senhor Jesus.
Aproximo-me de Deus exclusivamente através dos Seus
merecimentos, e jamais na base do meu comportamento; nunca,
por exemplo, na base de ter sido hoje especialmente amável, ou
paciente, ou de ter feito hoje algo especial para o Senhor. É só
aproximar dEle. A tentação de muitos de nós, quando procuramos
nos aproximar de Deus, é pensar que, porque Deus já operou em
nós - porque já atuou para nos trazer mais perto de Si, e porque
nos ensinou lições mais profundas da Cruz - então, já nos deu
novos padrões tais que, sem alcançar os mesmos, não haverá mais
consciência tranqüila diante dEle. Nunca, porém, se deve basear a
consciência tranqüila naquilo que conseguimos ou alcançamos;
somente se deve basear a consciência tranqüila naquilo que
conseguimos ou alcançamos; somente se pode basear na obra do
Senhor Jesus, no derramamento do Seu Sangue.
Talvez esteja errado; sinto, porém, com muita convicção, que
há entre nós quem pense desta maneira: "Hoje fui um pouco mais
cuidadoso; hoje procedi um pouco melhor; esta manhã, li a Palavra
de Deus com mais fervor, de modo que hoje posso orar melhor".
Ou, então: "Hoje tive algumas pequenas dificuldades com a família;
comecei o dia sentindo-me muito melancólico e deprimido; não me
sinto muito animado agora; parece que algo não está bem; não
posso, portanto, me aproximar de Deus".
Afinal de contas, qual é a base em que você se aproxima de
Deus? Aproxima-se dEle na base incerta dos seus sentimentos, o
sentimento de que hoje se realizou algo para Deus? Ou baseia-se a
sua aproximação de Deus em algo muito mais seguro, ou seja, no
Sangue derrama do no fato de que Deus olha para aquele Sangue e
Se dá por satisfeito? É lógico que se pudesse conceber que o
Sangue sofresse qualquer modificação, a base da sua aproximação
de Deus seria menos digna de confiança. O Sangue, porém, nunca
mudou nem mudará jamais. A sua aproximação de Deus é,
portanto, sempre com ousadia; e essa ousadia lhe pertence pelo
Sangue, e nunca pelas suas aquisições pessoais. Qualquer que
seja a medida do que se conseguiu alcançar hoje, ontem e no dia
anterior, logo que se faça um movimento consciente para o Lugar
[28/7, 23:03] LucimarSila: Santíssimo, deve-se permanecer no único funda mento seguro — o
Sangue derramado. Quer tenha tico um dia bom ou mal, quer
tenha pecado conscientemente ou não, a base da sua aproximação
é sempre a mesma – o sangue de Cristo. Esse é o fundamento
sobre o qual se pode entrar, e não há outro.
Vê-se que, como em muitas outras fases da nossa experiência
cristã, nosso acesso a Deus tem dois aspectos: um inicial e outro
progressivo. O primeiro se nos apresenta em Efésios dois, e o
ultimo em Hebreus 10. Inicialmente, a nossa posição perante Deus
foi garantida pelo Sangue, porque fomos "aproximados pelo Sangue
de Cristo" (Efésios 2.13). Mas, daí em diante, a base do nosso
contínuo acesso ainda é o Sangue, porque o Apóstolo nos exorta:
"Tendo, pois, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo
sangue de Jesus... aproximemo-nos..." (Hb 10.19-22). De inicio
chegamos perto pelo Sangue, e, para continuar nesta nova relação,
eu venho a Deus a todo momento pelo Sangue. Não se trata,
portanto, de haver uma base para a minha salvação, e outra para
manter minha comunhão. Alguém dirá: "Isso é muito simples; é o
ABC do Evangelho". Sim, mas a tragédia, com muitos de nós, é que
nos desviamos do ABC. Chegamos a pensar que fazemos tais
progressos que podemos dispensar o Sangue, jamais, porém,
poderíamos fazê-lo. Não, a minha aproximação de Deus é pelo
Sangue, e é desta mesma forma que, a todo momento, eu venho
perante Ele. E assim será até o fim; sempre e unicamente pelo
Sangue.
Isto não significa, de forma alguma, que devemos viver de
modo descuidado — estudaremos daqui a pouco outro aspecto da
morte de Cristo em que se considera este assunto. O que importa
aqui é nos contentarmos com o Sangue, que é real e suficiente.
Podemos ser fracos, no entanto o olhar para as nossas
fraquezas nunca nos tornará fortes. Procurar sentir nossa
maldade, e nos arrepender por isso, não nos auxiliará a sermos
mais santos. Não há auxílio nisso sem haver da nossa parte
confiança em nos aproximarmos de Deus mediante o Sangue,
dizendo: "Senhor, não entendo totalmente qual seja o valor do
Sangue, mas sei que a Ti satisfez, e que deve me bastar como
motivo único do meu apelo a Ti. Percebo agora que não se trata de
eu ter progredido e alcançado algo. Só venho perante Ti na base do
precioso Sangue". Então fica realmente limpa a nossa consciência
diante de Deus. Nenhuma consciência poderia jamais fica
[28/7, 23:04] LucimarSila: tranqüila, independentemente do Sangue. É o Sangue que nos dá
intrepidez.
"Não mais teriam consciência"de pecados": estas pa￾lavras de Hebreus 10.2 têm significado transcendente.
Somos purificados de todo o pecado e podemos realmen￾te fazer nossas as palavras de Paulo: "Bem-aventurado o
homem a quem o Senhor jamais imputará pecado" (Ro￾manos 4.8).
Vencendo o Acusador
Em face do que temos dito, podemos agora voltar-nos para
encarar o Inimigo, porque há um novo aspecto do Sangue, que diz
respeito a Satanás. Atualmente, é o de acusador dos irmãos
(Apocalipse 12.10), e nosso Senhor o enfrenta como tal no Seu
ministério especial de Sumo Sacerdote, "pelo seu próprio sangue"
(Hebreus 9.12). Como é, então, que o Sangue opera contra
Satanás? Por este meio: colocando Deus ao lado do homem. A
Queda introduziu algo no homem que deu a Satanás livre acesso a
ele, de forma que Deus foi compelido a Se retirar. Agora, o homem
está fora do Jardim — destituído da glória de Deus (Romanos 3.23)
— porque interiormente está separado de Deus. Por causa do que o
homem fez, existe nele algo que, até que seja removido, impede
Deus moralmente de o defender. Mas o Sangue remove aquela j
barreira e restitui o homem a Deus e Deus ao homem. O homem
agora está certo com Deus, e com Deus ao seu lado pode encarar
Satanás sem temor.
Lembre-se do seguinte versículo: "O sangue de Jesus, seu
Filho, nos purifica de todo pecado" (I João 1.7). Não é "todo pecado,
no seu sentido geral, é cada pecado, um por um. O que significa
isto? É algo maravilhoso! Deus está na luz, e na medida em que
andamos na luz com Ele, tudo fica exposto e patente a ela, de
modo que Deus pode ver tudo — e mesmo nestas condições o
Sangue pode nos purificar de todo o pecado. Que purificação! Não
se trata de eu não ter profundo conhecimento de mim mesmo, ou
de Deus não me conhecer perfeitamente. Não significa que eu
procuro esconder alguma coisa, ou que Deus não faz caso disso.
Não, significa que Ele está na Luz, e que eu também estou na Luz,
[28/7, 23:06] LucimarSila: e que mesmo ali o Sangue precioso me purifica de todo o pecado. O
Sangue pode fazê-lo plenamente.
Alguns de nós às vezes somos tão oprimidos pela própria
fraqueza que somos tentados a pensar que há pecados quase
imperdoáveis. Recordemos de novo a palavra: "O sangue de Jesus,
seu Filho nos purifica de todo pecado". Pecados grandes, pecados
pequenos, pecados que podem ser muito negros e outros que não
parecem tão negros assim, pecados que penso possam ser
perdoados, e pecados que parecem imperdoáveis, sim, todos os
pecados, conscientes ou inconscientes, recordados ou esquecidos,
se incluem naquelas palavras: "Todo pecado". "O Sangue de Jesus
Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo pecado", e isto porque o
Sangue satisfaz inteiramente a Deus.
Desde que Deus, que vê todos os nossos pecados na luz, pode
nos perdoar por causa do Sangue, em que base pode Satanás nos
acusar? Talvez Satanás nos acuse perante Deus, no entanto: "Se
Deus é por nós, quem será contra nós? " (Romanos 8.31). Deus lhe
mostra o Sangue do Seu querido Filho. É a resposta suficiente
contra a qual Satanás não tem apelação. "Quem intentará
acusação contra os eleitos de Deus? É Deus que os justifica. Quem
os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou antes, quem
ressuscitou, o qual está à direita de Deus, e também intercede por
nós' (Romanos 8.33-34).
Mais uma vez, portanto, vê-se que precisamos reconhecer a
absoluta suficiência do Sangue precioso. "Quando, porém, veio
Cristo como sumo sacerdote... pelo seu próprio sangue, entrou no
Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna
redenção" (Hebreus 9.11-12). Foi Redentor uma só vez, e já há
quase dois mil anos que está sendo Sumo Sacerdote e Advogado.
Ali permanece, na presença de Deus, como "propiciação pelos
nossos pecados" (I João ?). Notem-se as palavras de Hebreus 9.24:
"Muito mais o Sangue de Cristo...". Evidencia a suficiência do Seu
ministério. É suficiente para Deus.
Qual é a nossa atitude para com Satanás?
Isto é importante, porque ele não somente nos acusa perante
Deus, mas também na nossa própria consciência. "Você pecou, e
continua pecando. Você é fraco, e não há mais nada que Deus
[28/7, 23:07] LucimarSila: possa fazer por você". É este o seu aumento. E a nossa tentação é
olhar para dentro, procurando, para nos defender, algo em nós
mesmos, em nosso sentimento ou comportamento que nos dê
algum motivo para crer estar errado Satanás. Outras vezes, a
tendência é admitirmos a nossa grande fraqueza e, caindo no outro
extremo, nos entregamos à depressão e ao desespero. Assim sendo,
a acusação é uma das maiores e mais eficazes armas de Satanás.
Aponta para os nossos pecados e procura acusar-nos perante
Deus; se aceitarmos as suas acusações, afundar-nos-emos
imediatamente.
Ora, a razão por que aceitamos tão rapidamente as suas
acusações é que ainda esperamos ter alguma justiça própria. É
falsa a base da nossa esperança. Satanás conseguiu fazer-nos
olhar na direção errada, atingindo assim o seu objetivo de nos
deixar incapacitados. Se, porém, tivéssemos aprendido a não
confiarmos na carne, não nos espantaríamos quando surgisse o
pecado, posto que pecar é a natureza intrínseca da carne. É por
falta de reconhecermos qual seja nossa verdadeira natureza com
sua debilidade que nós ainda confiamos em nós mesmos, de modo
que tropeçamos sob as acusações de Satanás quando ele as
levanta contra nós.
Deus tem poder para solucionar o problema dos nossos
pecados; nada, porém, pode fazer por um homem que se submete
à acusação, porque tal homem já não está confiando no Sangue. O
Sangue fala em seu favor, prefere, porém, escutar Satanás. Cristo
é o nosso Advogado, mas nós, os acusados, nos colocamos do lado
do acusador. Ainda não reconhecemos que nada merecemos,
senão a morte; que, como logo passaremos a ver, só merecemos ser
crucificados! Não temos reconhecido que é somente Deus que pode
responder ao acusador e que já o fez por meio do Sangue precioso.
Nossa salvação está em olharmos firmemente para o Senhor
Jesus, reconhecendo que o Sangue do Cordeiro já solucionou toda
a situação criada pelos nossos pecados.
É este o fundamento seguro em que nos firmamos. Nunca
devemos procurar responder a Satanás, tendo por base a nossa
boa conduta, e sim, sempre com o Sangue. Sim, estamos repletos
de pecado mas, graças a Deus que o Sangue nos purifica de todo
pecado! Deus contempla o Sangue, por meio do qual o Seu Filho
enfrenta a acusação, e Satanás perde toda a sua possibilidade de
[28/7, 23:08] LucimarSila: atacar. Semente a nossa fé no Sangue precioso, e a nossa recusa
de sairmos daquela posição, podem silenciar as suas acusações e
afugentá-lo (Romanos 8.33-34); e assim será sempre até ao fim
(Apocalipse 12.11). Que emancipação seria a nossa, se víssemos
mais do valor, aos olhos de Deus, do precioso Sangue do Seu
querido Filho!